Terje Mikkelsen | 2018

À frente da Orquestra Sinfônica Estatal Russa “Evgeny Svetlanov”, o maestro norueguês Terje Mikkelsen fala sobre as ligações musicais entre Rússia e Noruega

Terje Mikkelsen

Por Ana Ponzio

De 14 a 17 de abril de 2018, a consagrada Orquestra Sinfônica Estatal Russa “Evgeny Svetlanov” realiza concertos gratuitos no Parque Ibirapuera (matinê para crianças no sábado e apresentação no palco externo na manhã de domingo), além de dois espetáculos na Sala São Paulo.

Serão oportunidades para rever a orquestra que é considerada a “joia da coroa” da cultura musical russa, sob regência do carismático maestro noruguês Terje Mikkelsen, em programas que destacam obras-primas do repertório sinfônico russo. As apresentações contam com a participação de um solista convidado – o pianista Philipp Kopachevsky, prodígio da nova geração de músicos da Rússia.

Em entrevista, o maestro Terje Mikkelsen fala sobre as apresentações em São Paulo e muito mais. Reconhecido também por sua versatilidade artística, ele já realizou parcerias com uma lenda do rock, o compositor e pianista britânico Keith Emerson, fundador da banda Emerson, Lake & Palmer. Muito presente na cena internacional, Mikkelsen trabalha em vários continentes, especialmente na Ásia, onde costuma ser especialmente requisitado na China. Admirador do compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos, o maestro aguarda com expectativa seu retorno a São Paulo.

Leia a íntegra da entrevista:

Quais suas expectativas com relação às apresentações em São Paulo, onde a Orquestra Sinfônica Estatal Russa “Evgeny Svetlanov”, sob sua regência, já fez grande sucesso, em apresentações de 2015?

Terje Mikkelsen – Eu e todos da orquestra aguardamos com grande expectativa a volta para São Paulo, para uma nova série de concertos organizados pelo Mozarteum Brasileiro.

Permaneceu em nossa memória a cordialidade e o entusiasmo do público em nossas quatro apresentações em São Paulo, em 2015. Foi muito gratificante realizar um concerto especialmente para crianças já em nossa primeira apresentação. Também nos deixou belas lembranças nosso espetáculo no palco ao ar livre do Parque Ibirapuera. A plateia foi muito receptiva, a ponto de nos fazer acreditar que estávamos nos apresentando com um time famoso de futebol, em um grande estádio.

Agora, nos concertos de 2018, teremos a oportunidade de apresentar algumas das maiores obras-primas de compositores russos. No Parque Ibirapuera, em mais um concerto ao ar livre, vamos tocar obras de Wagner, Grieg, Borodin e Tchaikovsky. Espero que estas músicas despertem muitas emoções e, mais uma vez, toquem fundo no coração dos espectadores.

O que marca os programas com obras de Grieg, Tchaikovsky, Rachmaninov e Shostakovich, que a Orquestra Sinfônica Estatal Russa “Evgeny Svetlanov” apresentará na Sala São Paulo?

Os programas expressam o apogeu absoluto do repertório sinfônico russo.

Qual a confluência do norueguês Edvard Grieg com esse repertório russo?

Terje Mikkelsen – É simbólico estarmos começando os concertos com Grieg, que teve forte impacto sobre todos os três compositores russos incluídos nos programas.

Tchaikovsky dizia que jamais conseguiria compor melodias tão bonitas quanto as que Grieg escreveu. Tchaikovsky também disse a Grieg que pretendia dedicar a ele a sua Quinta Sinfonia, mas foi a Abertura-Fantasia Hamlet que ele acabou dedicando ao amigo.

Grieg é cohecido por ter estabelecido os fundamentos nacionais da música romântica da Noruega, ao usar canções folclóricas e danças, transformadas artisticamente, para criar uma atmosfera que capta o espírito nórdico e sua paisagem.

Quanto à peça teatral Peer Gynt, de Henrik Ibsen, trata-se do raro caso em que a música homônima tornou-se mais famosa do que o drama literário que ela ilustra.

E o que Tchaikovsky, Rachmaninov e Shostakovich representam na música russa?

Terje Mikkelsen – Tchaikovsky sempre será considerado o compositor número um da Rússia – tanto por sua popularidade quanto pela variedade de sua enorme produção de sinfonias, concertos, óperas, balés e música de câmara.

Para estas apresentações na Sala São Paulo, nós selecionamos, de Tchaikovsky, a Quinta Sinfonia e o Concerto para Piano nº 1 em Si Bemol Menor.

Tchaikovsky escreveu obras carregadas de intuição e forte emoção, com melodias ricas e de grande beleza, que assimilavam a música folclórica russa. Além disso, sua música é cheia de contrastes e incorpora todo tipo de emoção – do lírico e pastoral ao sentimento mais dramático.

Rachmaninov encontrou Tchaikovsky aos 12 anos de idade, quando ele ingressou no Conservatório de Música de Moscou. A amizade entre eles tornou-se decisiva para o desenvolvimento artístico de Rachmaninov e influenciou sua futura produção musical. Também é interessante mencionar que Rachmaninov usou o Concerto para Piano de Edvard Grieg como modelo e inspiração, quando ele começou a compor o seu primeiro concerto para piano.

De Rachmaninov, nós tocaremos o Concerto nº 2 para Piano em Dó Menor, que tornou-se um sucesso imediato após sua estreia em Londres, com o compositor ao piano. Foi uma grande vitória para Rachmaninov, que enfrentou uma depressão profunda e forte autorrejeição por causa do fiasco de sua primeira sinfonia e de seu primeiro concerto para piano, três anos antes.

Shostakovich, junto com Prokofiev, foi o mais extraordinário compositor russo do século 20. A maior parte de seu prolífico legado musical consiste de sinfonias, óperas, balés, concertos, música de câmara e trilhas para cinema – o que faz dele um dos mais produtivos compositores. Sua música pode ser descrita como monumental, cheia de expressão dramática, com grande invenção melódica e fortemente influenciada pelo folclore russo. Com sua Quinta Sinfonia, Shostakovich confirmou-se como um dos mais notáveis compositores de sua época.

Você já disse que a Orquestra Sinfônica Estatal Russa “Evgeny Svetlanov” desenvolveu qualidades únicas quanto à homogeneidade de som e à intensidade de sua expressão artística. O que torna esta orquestra tão especial?

Terje Mikkelsen – Importante frisar que a educação musical na Rússia sempre foi uma das melhores do mundo. Consequentemente, ser um músico profissional na Rússia é sempre uma ocupação de muito prestígio. As melhores orquestras sinfônicas e de ópera russas podem escolher músicos entre os melhores do país. Desde que conquistou o topo, a Sinfônica Estatal Russa “Evgeny Svetlanov” passou a ter os melhores músicos russos à sua disposição. Para completar, além de trabalhar com os mais renomados solistas, tem sido conduzida pelos melhores maestros – da cena nacional e internacional. Fatores como estes constroem e moldam as qualidades de uma orquestra e, da mesma forma, criam uma identidade sonora muito especial.

O que podemos esperar do pianista Philipp Kopachevsky, solista convidado dos concertos em São Paulo?

Terje Mikkelsen — Philipp Kopachevsky é um dos mais talentosos músicos de sua geração. Tem grande experiência em apresentações solo e recitais com muitas orquestras ao redor do mundo. Sei que estudou com o famoso professor Sergey Dorensky, no Conservatório de Moscou. Pianistas excepcionais, como Denis Matsuev e Nikolay Lugansky, vencedores da prestigiosa Competição Internacional Tchaikovsky, também foram seus alunos. Tenho as melhores expectativas sobre as interpretações que Philipp fará das obras de Tchaikovsky e Rachmaninov, nos concertos em São Paulo.

Parte do sucesso das apresentações da Orquestra Sinfônica Estatal Russa “Evgeny Svetlanov” em São Paulo, em 2015, foi por causa de seu carisma, da empatia que você estabelece com o público. O que significa reger uma orquestra em um concerto ao vivo?

Terje Mikkelsen – Não há nada melhor do que estar no palco com uma orquestra entusiasmada e ultrapassar os limites para alcançar uma performance espetacular. O segredo é como trocar energias entre os músicos da orquestra e a plateia – enviando e recebendo e assim conseguir uma percepção aguçada de ambos os lados. O resultado deste intercâmbio é a resposta calorosa e dedicada por parte do público, quando ele reconhece e aprecia o que foi experimentado musicalmente.

Reger diferentes orquestras em diversos países traz desafios específicos para você?

Terje Mikkelsen – Os poucos desafios que tenho encontrado quando visito orquestras tem sido quase exclusivamente de caráter administrativo. Quando surgem demandas musicais tudo se resolve nos ensaios e na preparação de todos para os concertos. Há muitas maneiras de abordar exigências musicais e encontrar soluções sem delimitar a hierarquia do maestro e sem estressar os músicos. Penso que todos os músicos têm o objetivo comum de alcançar o mais alto nível possível em cada concerto. Minha tarefa é encorajá-los e conduzi-los a essa meta comum, fazendo a música falar sua própria linguagem e tocar os corações humanos. Bons músicos tratam de unir esforços na mesma direção para que todos desfrutem dos resultados.

Você tem se apresentado com frequência na China, regendo orquestras chinesas. A música clássica tem o poder de ser assimilada e apreciada por todas as culturas?

Terje Mikkelsen – Está aumentando muito o número de orquestras sinfônicas na China. Da mesma forma, a qualidade também está em alta. Sempre me perguntam sobre música clássica e tradição na China e eu frequentemente respondo que devemos lembrar que a Orquestra Sinfônica de Xangai foi fundada em 1879 e é reconhecida como a mais antiga orquestra chinesa. Portanto, em algumas regiões da China, a música clássica tem sido cultivada há muito tempo.

Foram abertas muitas novas salas de concertos na China e a maioria tem excelente acústica. Enfim, há interesse e demandas crescentes por música clássica e isto é resultado da expansão da educação musical e da produção de concertos. Percebi que a música de Grieg é muito popular lá e não somente através de seu Concerto para Piano e de Peer Gynt. Suas Danças Sinfônicas e a Holberg Suite são também muito conhecidas pelo público chinês.

Acredito fortemente que os ouvintes chineses apreciam música tanto quanto os europeus e os americanos. Acho que quanto mais o público tem acesso à cultura musical, quanto mais ganha conhecimento sobre as obras musicais e as intenções dos compositores, melhor será a compreensão que eles terão e mais forte o impacto ao frequentar concertos. Na minha compreensão, a apreciação e a admiração pela música clássica não estão limitadas às tradições da cultura ocidental. A música é universal e satisfaz as necessidades estéticas e emocionais do ser humano, indiferente do contexto cultural.

Versatilidade é uma de suas qualidades. Você gravou recentemente um novo CD, como regente da orquestra Academy of Saint Martin in the Fields, com o violonista norueguês Stein-Erik Olsen como solista, sobre canções de três compositores: o brasileiro Heitor Villa-Lobos, o cubano Leo Brouwer e o russo Nikita Koshkin. O que significou esta experiência com estes compositores de culturas diversas?

Terje Mikkelsen – O compositor brasileiro Heitor Villa-Lobos é muito familiar para mim e eu o admiro muito, principalmente depois que eu fiz a regência de dois de seus concertos – para violoncelo e harpa – e das Bachianas Brasileiras.

Gravar o Concerto para Violão de Villa-Lobos com Stein-Eric Olsen me deu a chance de conhecer esta música exuberante e pulsante, com uma profunda autenticidade com relação a raízes culturais. Neste concerto, Villa-Lobos mostra sua maestria para compor tanto a brilhante parte solística como a textura rica e vibrante da orquestra.

Com uma orquestra tão boa como a Academy of Saint Martin in the Fields foi um prazer absoluto para mim conduzir esta obra.

Vejo Villa-Lobos como um autor com identidade musical comparável aos compositores noruegueses do final do século 19 e começo do século 20, quando eles todos começaram a buscar músicas folclóricas nacionais e usá-las como temas e inspiração para composições orquestrais.

Quanto às demais composições deste CD: antes das sessões de gravação no Abbey Road Studios eu realizei alguns ensaios com o violonista Stein-Erik Olsen e tive a chance de conhecer o compositor Nikita Koshkin e trabalhar muito estreitamente em seu Bergen Concerto com os dois músicos. A obra foi encomendada por Olsen e o título foi parcialmente dado por ele, já que o violonista é da cidade norueguesa de Bergen. O desafio foi equilibrar a orquestra durante a gravação e me certificar de que os músicos da orquestra poderiam estabelecer um diálogo musical com o solo de violão.

A Academy of Saint Martin in the Fields é uma orquestra magnífica, extremamente receptiva às mais refinadas exigências e acho que nós, juntos, atendemos bem o compositor com a primeira gravação mundial do Bergen Concerto.

Já o compositor cubano Leo Brewer escreveu seu Terceiro Concerto para violão e orquestra em 1986 e o intitulou Elegiaco. Ele próprio foi um excelente violonista e também um importante maestro, então a partitura contém muita informação para o regente sobre como interpretar esta música.

Em novembro de 2017 você gravou seu segundo álbum de canções inéditas de Keith Emerson, com a Academy of Saint Martin in the Fields nos estúdios Abbey Road de Londres. Qual a importância de sua parceria com Emerson, uma lenda do rock?

Terje Mikkelsen – Eu conheci Keith Emerson em Pequim em 2007, quando nós apresentamos uma obra curta juntos, com a Orquestra Nacional da China. Logo depois, nós fizemos uma gravação de algumas partes de seu concerto para piano e fomos gravar Endless Enigma. Eu descobri que o público estava reagindo muito positivamente à música de Keith Emerson quando apresentada em arranjos para orquestra sinfônica e nós decidimos ir adiante para gravar mais obras juntos – com Marc Bonilla, a Banda Keith Emerson e a Orquestra da Rádio de Munique. Nós também fizemos um concerto em Londres, no Barbican Hall, junto com a Orquestra Sinfônica da BBC.

Quando Keith tragicamente cometeu suicídio, cerca de dois anos atrás, eu senti que era minha responsabilidade documentar algumas das obras que ele tinha produzido em seus últimos anos. Keith trabalhou muito próximo do compositor norueguês Kjetil Bjerkestrand nos arranjos orquestrais e eu o convidei para finalizar as obras, de forma que pudesse gravá-las com a Academy of Saint Martin in the Fields. Nós gravamos este álbum no Abbey Road Studio 1, algo que Keith sempre quis fazer. Foi tudo muito simbólico.

Qual a sua mais remota memória sobre música? Como você descobriu a música e percebeu que era importante em sua vida? A propósito, você vai reger um concerto para crianças em São Paulo. Qual a importância do contato com a música na mais tenra idade?

Terje Mikkelsen – Minha primeira impressão musical é de um concerto coral que meus pais me levaram para assistir, quando eu tinha entre dois e três anos de idade. Eu fiquei hipnotizado pela beleza da música e minha mãe costumava me dizer que eu movimentava meus braços para imitar o maestro.

Outra impressão forte foi quando eu visitei o parque Minnehaha, na cidade norte-americana de Minneapolis. Havia uma lenda de um velho índio, ligada à cachoeira que lá existe, a qual conheci antes de meus pais me levarem a este lugar. A mesma estória serviu de inspiração para Henry Wadsworth Longfellow escrever o poema Canção de Hiawatha. O compositor tcheco Antonín Dvorák leu o poema, visitou o lugar e ficou muito tempo olhando a impressionante queda d’água. Tudo isto o inspirou, como uma pintura, para escrever algumas composições, inclusive sua famosa Nona Sinfonia, a do Novo Mundo. Eu tinha somente seis anos, mas ouvir a Nona Sinfonia de Dvorák e aprender de onde veio a inspiração teve um impacto muito forte sobre mim.

Acredito fortemente que nós, músicos, devemos aproveitar cada oportunidade para inspirar e encorajar jovens a ouvir música clássica e criar um interesse para que entrem dentro do fascinante e belo mundo dos sons e das histórias hipnotizantes, que se tornam ilimitadas pela imaginação.

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