Série #NossosTalentos | Noite das Estrelas
Eduardo Frigatti, compositor

Dias 8 e 9 de outubro, na Sala São Paulo, o Mozarteum encerra sua programação de 2018 com os concertos Noite das Estrelas. Em cena, acompanhados da Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro, sob regência de seu maestro titular, Carlos Moreno, estarão 12 jovens solistas brasileiros com carreiras promissoras, que em algum momento foram impulsionadas pelo Mozarteum. Vale a pena conhecê-los: são novos talentos que despontam inclusive na cena internacional, comprovando a potência musical brasileira.

Eduardo Frigatti, compositor

O compositor paranaense Eduardo Frigatti teve uma oportunidade ambicionada por muitos músicos do mundo inteiro: estudar com Krzysztof Penderecki em Cracóvia, Polônia.

Considerado o mais importante compositor vivo da Polônia, Penderecki também é citado como o autor que mais se projetou no século 20 com rapidez equivalente à de Stravinsky. A obra de Penderecki já inspirou muitos compositores contemporâneos. No cinema, está presente em trilhas de filmes como O Iluminado, de Stanley Kubrick, O Exorcista, de William Friedkin e Ilha do Medo, de Martin Scorsese.

Para Eduardo Frigatti, a chance de estudar com Penderecki se deu por meio de uma bolsa de estudos do Mozarteum Brasileiro. Uma de suas mais novas criações – Aquarela Trancoso – terá sua estreia mundial nos concertos Noites das Estrelas, com a Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro. No relato a seguir, Frigatti conta sua experiência muito especial com Penderecki, em 2015.

A descoberta da música contemporânea:

“Não me recordo bem. Era adolescente. Em uma classe de história da música, na escola de música de minha mãe, me vi diante da vanguarda pela primeira vez. Um professor deu o play. Eram sons completamente diferentes do que eu ouvira antes. Me impressionavam as imagens agonizantes de Threnody for the Victims of Hiroshima. Trata-se de uma das mais famosas obras do compositor polonês Krzysztof Penderecki. Nos anos seguintes, me deparei com sua música em outros momentos, nos livros de orquestração, de história da música (sonorismo polonês), de composição. Esta e outras obras de Penderecki passaram a integrar o meu ‘playlist’.”

Caminho em direção ao mestre:

“Hoje, aos 33 anos de idade, me parece uma ironia do destino a oportunidade de ter estudado com Krzysztof Penderecki, graças à bolsa do Mozarteum Brasileiro. Natural de Cidade Gaúcha, pequena cidade no noroeste do Paraná, cresci em Cianorte. E em meio às brincadeiras de interior, estudava piano com minha mãe. Também estudei violino. E me apresentei em pequenos recitais ao piano ou ao violino. Jamais abandonei estes instrumentos, mas foi ao violão que me dediquei enquanto instrumentista. Estudei violão popular e erudito. Convivo à vontade com esses repertórios que se conectam e alimentam minha imaginação.

Criar sempre esteve presente em minha vida. Meus pais relatam que sempre gostei de inventar, imaginar. O gosto pela composição me chegou com força surpreende na adolescência. Pequenas peças para piano, violão e violino. Canções. Sempre me acompanharam e me agradaram minhas pequenas criações, que compartilhava com os amigos. Mas a coragem para me assumir compositor veio somente aos 26 anos. Ao final da minha segunda graduação, já vivia em Curitiba, decidi estudar composição formalmente com o compositor Maurício Dottori.

Em pouco tempo estudando composição, venci alguns concursos, participei de importantes festivais e tive minha obra gravada em alguns álbuns. Acredito que as vivências musicais anteriores, e seus tortuosos caminhos, me formaram de modo particular. E essa caminhada inesperada me levou novamente até Penderecki. Reencontrei o mestre polonês. Não nos livros. Em pessoa.”

Estudar mas com tempo livre para criar

“Era sexta-feira. Desembarcara na véspera em Cracóvia. Conversava com o coordenador, Senhor Widlak, sobre o que faria na Academia de Música de Cracóvia. Segundo ele, eu era um aluno especial. Aluno do professor Penderecki. Poderia escolher as disciplinas que desejasse. Durante nosso encontro, ele soube que o professor Penderecki estava lá. Rara aparição na instituição do grande mestre. Agenda sempre cheia, o maestro não costumava ir à Academia de Música. Assim, fomos ao encontro de meu professor.

De baixa estatura, mas com um andar imponente. Esta foi minha primeira impressão do compositor. Alegrou-se com minha presença. E após as cordialidades iniciais, agendamos a primeira aula: na segunda-feira seguinte. As aulas de composição eram em sua residência. Em nosso primeiro encontro, mostrei meus trabalhos e falei um pouco sobre minha formação. O professor fez alguns apontamentos e me recomendou estudar fuga. Disse para eu escolher mais algumas matérias que fossem de meu interesse, mas não muitas, pois era primordial que tivesse tempo livre para compor. ‘Estude fuga’, enfatizou ao final.”

Aulas iniciais:

“Assim, após refletir quais seriam as melhores oportunidades para minha formação, decidi estudar, além de composição, fuga, orquestração, técnicas de música dos séculos 20 e 21, introdução à música eletroacústica e contraponto nos séculos 20 e 21. Com exceção de composição, as aulas eram semanais e individuais. Eram predominantes práticas, com exercícios analíticos e práticos. As aulas de composição eram agendadas conforme a disponibilidade do maestro Penderecki. Tivemos mais seis encontros em que estive como aluno na academia. Felizmente, tive a oportunidade de encontrá-lo em outras oportunidades após o meu período de estudos.”

Inspirações em Cracóvia:

Durante minha estada em Cracóvia compus diversas peças. Entre as quais destaco: Morriña, meu primeiro quarteto de cordas que foi premiado no Festival de Música Contemporânea Edino Krieger; Rose of Hiroshima, peça eletroacústica, selecionada para participar do Festival Internacional de Música Eletroacústica MusLab; Halny, para flauta e violão, encomendada pelo grupo Móbile de música contemporânea, após seleção; e Lorca Songs, para mezzo-soprano e cello, peça que tive o prazer de executar para o professor Penderecki em uma de suas aulas.

Naqueles meses, além das aulas na academia, pude mergulhar na cultura européia. Cracóvia tem uma vida cultural intensa. Estive em vários concertos, visitei diversos museus, andei por lugares históricos. Estive em profundo contato com a arte. Essas vivências eram um alento para minha saudade e uma inspiração para minhas obras.

Momento atual:

Voltar ao Brasil após essa experiência tem sido um desafio. É necessário reconstituir contatos e retomar a carreira aqui. Atualmente, além de compor todo dia (um ato sagrado, recomendado pelo meu renomado professor), estou realizando meu doutorado em música na Universidade de São Paulo. Também tenho me dedicado a divulgar minhas obras (atualmente tenho em torno de 50 composições), tocando, participando de concursos de composição, encomendas de trabalhos e festivais. Recentemente, voltei a me apresentar como violonista ao lado da mezzo-soprano e compositora Paulina Luciuk, com o nosso Duo Vrtoglavica.

Aquarela Trancoso

“Em meio às encomendas que tenho recebido, fui agraciado com a oportunidade de escrever uma peça para a Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro. Escrevi duas obras:  Pairi-daeza e Aquarela Trancoso. Após reuniões, optamos por apresentar a segunda peça. Trata-se de uma música comemorativa, inspirada em ritmos e melodias da música brasileira. Diferentes ritmos brasileiros se alternam ao longo da peça, celebrando a diversidade da cultura brasileira. A orquestra ora é tratada de forma tradicional, ora como uma banda, ora com camadas de texturas – tal como os choros de Villa-Lobos. A melodia, inspirada em escalas regionais nordestinas, atravessa essas texturas rítmicas ao longo da peça, atingindo seu ápice em um coro de metais ao final da obra. O título remete ao Música em Trancoso, o importante festival internacional realizado pelo Mozarteum no sul da Bahia. Estou muito animado e ansioso para ouvir o resultado deste trabalho.”

Um sol radiante

“O processo criativo é muito solitário e muito pessoal. Quando finalizada, a obra ganha vida própria e gera diferentes significados em cada pessoa. Essa dubiedade entre o particular e o universal me atrai. Tenho curiosidade sobre como minhas obras tocam as pessoas. Espero que Aquarela Trancoso seja um sol radiante, iluminando a imaginação dos ouvintes com sentimentos positivos, pois é disso que trata a obra: esperança.”

Mozarteum: a oportunidade de realizar sonhos

As oportunidades que Mozarteum Brasileiro tem oferecido – através das bolsas e da criação de espaços para partilhar o trabalho artístico em renomadas salas de concerto – são fundamentais para a carreira do estudante de música e do jovem músico (compositor, no meu caso). Quanto às bolsas, são importantes porque criam contatos com artistas de excelência internacionalmente reconhecidos, além de possibilitar ao estudante um momento para mergulhar no universo artístico. Já as oportunidades de apresentação são igualmente essenciais por oferecerem meios para que os jovens artistas possam partilhar seu trabalho e paulatinamente se tornar mais conhecidos pelo público. Assim, o trabalho do Mozarteum Brasileiro é fundamental para o fortalecimento da produção artística (essencial para criar uma identidade cultural), o aperfeiçoamento dos músicos e a construção da carreira do jovem artista. Sou eternamente grato pela oportunidade. Além da possibilidade de estudar em uma instituição do mais alto nível, pude encontrar um dos maiores compositores do século 20. O encontro com Krzysztof Penderecki me fez crer que estou no caminho certo e que é possível ir além dos sonhos.”

Canal de Eduardo Frigatti no youtube (Frigatti Contemporary Music): https://bit.ly/2L2PTLr

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