A triunfal estreia brasileira de Anna Netrebko e Yusif Eyvazov marca o calendário de espetáculos de 2018

O tenor Yusif Eyvazov e a soprano Anna Netrebko em apresentação única na Sala São Paulo. | FOTOS: Cauê Diniz

 

Quieta, sem muitas conversas, aparentemente tímida. Desde sua chegada a São Paulo, dois dias antes de sua estreia brasileira na última segunda-feira, 6 de agosto, Anna Netrebko preferia a introspecção. No entanto, bastou pisar no palco para ela se sentir em casa e cintilar totalmente.

Festejadíssima logo que entrou em cena, recebida como superstar pelo público que lotou a Sala São Paulo na noite fria e chuvosa, a maior soprano do mundo causou empatia imediata. Além da performance esplendorosa, ela interagiu com o público, esbanjou simpatia e desenvoltura, terminando o espetáculo com a plateia querendo mais, muito mais.

Yusif Eyvazov, tenor e marido da soprano, também brilhou, somando entusiasmo à noite. Pouco conhecido do público brasileiro, ele revelou seu talento e carisma e certamente ganhou inúmeros fãs em sua estreia em São Paulo com Anna Netrebko. Para completar, a Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro fez uma apresentação admirável, conquistando elogios calorosos inclusive de Jader Bignamini, o maestro convidado que acompanha a dupla de cantores nesta turnê sul-americana que já passou por Santiago (Chile) e prossegue em Lima (Peru) e Buenos Aires (Argentina).

O programa apresentado por Anna Netrebko e Yusif Eyvazov nesta estreia brasileira percorreu – como uma breve viagem – o repertório que revela a preferência dos dois artistas e também os sucessos de ambos nos principais teatros de ópera do mundo. No formato concerto, este tipo de espetáculo compõe um arco que inclui árias notáveis – desde o dueto de Otello e Desdemona, que também representa uma das mais belas músicas de amor concebidas por Verdi, passando por Madama Butterfly, de Puccini, Andrea Chénier de Giordano, até a Czárdás do húngaro Emmerich Kálmán, cantada com toda a profusão de sílabas e a velocidade rítmica que permitem a Netrebko mostrar que é capaz de tudo com sua voz .

A momentos desafiadores de tirar o fôlego (pela fusão de técnica e emoção), Netrebko e Eyvazov somaram instantes de plena descontração, especialmente durante a famosa canção napolitana O Sole Mio, de Eduardo Di Capua, cantada – e dançada pelos dois – no bis, que ainda incluiu o arrebatador solo da soprano em O Mio Babbino Caro, da ópera Gianni Schicchi, de Puccini.

Aos 46 anos, Anna Netrebko desfruta sua plenitude artística, dividindo com o público uma alegria de viver que ela cultiva deliberadamente. Para maior deleite do público, ela surgiu deslumbrante, na primeira parte do espetáculo, em um vestido branco e preto acinturado, com saião estilo princesa. Na segunda parte, preferiu um vestido rosa mais colado ao corpo, sem economia de brilhos.

Neste espetáculo que ficou na memória – e na história – vale notar a participação impecável da Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro, cuja qualidade vem sendo construída por seu maestro titular, Carlos Moreno. Desde sua estreia em março de 2017, no festival Música em Trancoso, esta jovem sinfônica vem se aprimorando cada vez mais. Na apresentação de Anna Netrebko e Yusif Eyvazov, provou competência para acompanhar artistas estelares e desenvoltura para atender exigências de maestros convidados – no caso o italiano Jader Bignamini.

Com quase cem músicos, a Orquestra Acadêmica Mozarteum Brasileiro vem fomentando o talento de jovens como os violinistas Robert Barreto de Jesus e Edivonei dos Santos Jr., o violista Felipe Magalhães e o violoncelista Gabriel Magalhães, todos de Trancoso, sul da Bahia, onde têm participado das ações socioeducativas do Mozarteum. Com exceção de Felipe, os outros três nunca haviam tocado na Sala São Paulo antes do espetáculo de Netrebko e Eyvazov.

Em 2018, ao realizar a triunfal estreia brasileira de Anna Netrebko e Yusif Eyvazov, o Mozarteum Brasileiro mais uma vez traz para o Brasil o que há de melhor na cena musical do mundo.

 

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