Por Ana Francisca Ponzio

Javier Camarena, grande astro internacional da música lírica, cantará pela primeira vez no Brasil junto com a soprano sul-africana Pretty Yende. Em companhia do pianista cubano Angel Rodriguez, a dupla de artistas fará duas  apresentações na Sala São Paulo nos dias 8 e 9 de agosto, na programação de 2017 do Mozarteum Brasileiro.

Em entrevista exclusiva, Javier Camarena fala em tom emocionado sobre sua estreia brasileira e a oportunidade de dividir o palco com Pretty Yende. “Ela é uma grande personalidade, uma grande artista”, diz sobre a soprano, com a qual já compartilhou espetáculos no Metropolitan Opera House (Met), de Nova York – como a ópera O Barbeiro de Sevilha, de Rossini, no início deste ano.

Ele define como “espetacular” o programa que apresentará em São Paulo com Pretty Yende. Espera, inclusive, experimentar novos momentos mágicos, assim como vem acontecendo em suas apresentações ao redor do mundo.

Nascido na cidade mexicana de Xalapa, localizada aos pés do vulcão Macuiltépetl, Javier Camarena consagrou-se definitivamente em 2014, ao quebrar o protocolo no Met. Na época, o grande templo novaiorquino da ópera avisava em seus programas que o bis não era permitido. Após cantar Sì, ritrovarla io giuro, em La Cenerentola, de Rossini, Camarena ganhou um tsunami de aplausos e teve que repetir a ária. Até então, somente Luciano Pavarotti e Juan Diego Flórez haviam concedido bis durante as récitas do Met. “Foi uma noite mágica”, ele diz, esperando também conquistar a plateia brasileira. “A conexão com o público me emociona muito”, diz.

Com sua voz que consegue se sobrepor ao som da orquestra, Javier Camarena também se tornou conhecido como o “novo rei do high C”, por alcançar a mais alta extensão da nota musical Dó. Chegar ao estrelado, no entanto, custou-lhe muito trabalho e persistência, pois no início sua família não concordou com sua opção pela carreira artística.

Hoje, para os jovens que pretendem se tornar cantores líricos, ele destaca a importância de não queimar etapas: “É preciso aprender a engatinhar antes de começar a caminhar, aprender a caminhar antes de aprender a correr e aprender a correr antes de começar a voar”.

A seguir, a entrevista de Javier Camarena. 

Quais são suas expectativas sobre as apresentações em São Paulo, ao lado de Pretty Yende e do pianista Angel Rodriguez?

Javier Camarena – Estou muito emocionado com a oportunidade de cantar pela primeira vez em São Paulo. Será muito bom para mim, inclusive para conhecer a cidade e o público brasileiro. Também estou feliz porque esta minha primeira aproximação com o Brasil será em companhia de Angel Rodriguez e de uma cantora tão maravilhosa como Pretty Yende.

Angel Rodriguez é meu pianista, compartilho o palco com ele em muitas ocasiões. Ambos são grandes artistas. Será uma oportunidade preciosa. Estou certo de que o público desfrutará deste programa espetacular em todos os sentidos.

Em geral você está em cena como protagonista de grandes montagens operísticas. Qual a diferença do formato recital programado para São Paulo?

Javier Camarena – Na versão recital cantamos highlights das óperas. É um pouco menos exigente do que participar de uma ópera inteira. Mas, por outro lado, o recital com piano proporciona uma intimidade muito mais palpável com o público e com os parceiros de cena. No recital cantamos seguidamente todas as partes mais complicadas de cada ópera e também não saímos de cena para repor energia enquanto os outros personagens do enredo seguem cantando. Eu, no entanto, desfruto de ambos os formatos, recital e ópera, e em São Paulo será muito especial contar com um pianista tão sensível quanto o maestro Angel Rodriguez.

Nos recitais em São Paulo, você e Pretty Yende cantarão obras de Donizetti, Bellini, Rossini e Verdi. O que este programa proporciona de especial, em sua opinião?

Javier Camarena – É um programa espetacular em todos os sentidos, com diferentes árias de óperas, de diferentes compositores. É muito focado no bel canto, por isso teremos Bellini e Rossini – o bel canto era a especialidade de ambos. Apresentaremos ainda duetos maravilhosos, além de noturnos da ópera Don Pasquale, de Donizetti, que são belíssimos. Trata-se de um programa muito completo quanto à gama de emoções que estaremos projetando em cada uma das interpretações musicais.

Por que decidiu ser um cantor lírico? Foi estimulado por sua família?

Javier Camarena – Não foi muito fácil no início. Eu estava no segundo ano de engenharia quando decidi que esta não era a minha vocação, não era o caminho que queria seguir. Sempre tive fascinação pela música, tinha habilidades e qualidades musicais, mas quando me decidi pela carreira artística minha família não concordou. Depois foram vendo meu esforço e dedicação e aos poucos se convenceram.

Eu comecei a estudar canto casualmente. Já tinha 19 anos quando resolvi seguir carreira na música. Com esta idade já era considerado velho para me projetar em instrumentos que eu gostava, como piano ou violão. Então me decidi pelo canto. Depois de quatro anos de estudo vi um vídeo da ópera Turandot, de Puccini, com Plácido Domingo e Éva Marton, gravada no Metropolitan Opera House de Nova York. Fiquei encantado e ainda mais envolvido com este gênero musical. Foi um caminho de muito trabalho, muito estudo e sacrifícios. Mas, tenho desfrutado desta minha grande paixão em cada segundo de minha vida.

A sua voz pode se sobrepor ao som de uma orquestra e hoje você é chamado de “novo rei do high C”, por conseguir alcançar a mais alta extensão da nota musical Dó. Como você desenvolveu o poder de sua voz?

Javier Camarena – Acho que o poder de minha voz se desenvolveu com o tempo, como fruto de uma disciplina de trabalho muito concentrada na técnica vocal. É como um atleta que levanta pesos de cinco, dez quilos em uma mão. Pouco a pouco, ele vai conseguindo levantar muito mais pesos porque os músculos, o corpo, vão se habituando e ganhando mais força. Penso que o mesmo acontece com a voz. Hoje, após 13 anos de carreira profissional, tenho uma amplitude vocal muito maior. A tonalidade grave se fortaleceu, os agudos são mais plenos de qualidades tímbricas e harmônicas. Houve um desenvolvimento e um crescimento tanto na potência quanto no domínio técnico da voz. É o que percebo.

As características e as tonalidades de sua voz influenciam as escolhas de seu repertório?

Javier Camarena – O repertório fez parte do desenvolvimento da voz. No início cantei repertório de tenor lírico ligeiro, o que me permitia abordar papéis de ópera bufa, de Rossini principalmente, com muitas coloraturas, muitas notas que se sucedem rapidamente. Mas a minha voz não é típica do repertório ligeiro, sempre teve muito mais peso e densidade. Depois de Rossini explorei obras de Donizetti, pouco a pouco as músicas de Bellini entraram em meu repertório e hoje tenho a possibilidade de cantar Verdi, que também é parte muito consciente do desenvolvimento de minha voz.

Você se sente no auge da carreira?

Javier Camarena – Hoje me sinto muito mais pleno quanto às minhas possibilidades vocais e o repertório que exploro. Sinto-me pleno cantando obras de Bellini e Donizetti. Mas não estou no auge da carreira. Ainda tenho muitas coisas para descobrir, muito repertório para explorar.

Você tem recebido aplausos arrebatadores, que marcam inclusive momentos de consagração histórica. Em 2014 você tornou-se o terceiro cantor em 70 anos, depois de Luciano Pavarotti e Juan Diego Flórez, a conceder bis no Metropolitan Opera House de Nova York (Met), durante a apresentação – considerando que o Met não permitia bis. Pode descrever sua sensação diante de tanta comoção do público?

Javier Camarena – A consagração no Metropolitan Opera House foi muito emocionante para mim. Desde que decidi ser cantor de ópera o Metropolitan significou o topo ao qual eu queria chegar. Hoje em dia, além desta conquista ainda conto com permanência nas temporadas deste grande teatro. A comunicação com a plateia aconteceu de forma muito verdadeira no Met, foi uma noite mágica. Quando canto, procuro interpretar ao máximo o personagem. Naquela apresentação eu interpretava o príncipe Ramiro, da ópera La Cenerentola, de Rossini. Viver a emoção deste personagem em meu corpo e conseguir expressá-la, fazendo com que o público a recebesse com a mesma intensidade, fez daquela noite um momento maravilhoso. É a apresentação que guardo na memória com mais carinho.

Estes tsunamis de aplausos têm ocorrido com frequência em palcos tradicionais de ópera, como o Teatro Real de Madri. O quanto é importante a sua conexão com a plateia?

Javier Camarena – Sim, ocorreu situação semelhante à do Met no Teatro Real de Madri, durante apresentação da ópera La fille du régiment, de Donizetti. E continua acontecendo. Recentemente foi em Las Palmas de Gran Canaria e Barcelona. É uma grande honra para mim romper um pouco com a solenidade da ópera, sentir que ela está viva, que pode tocar o coração das pessoas. Esta conexão com o público me emociona muito.

Nas apresentações em São Paulo você cantará a mesma ária que o consagrou no Metropolitan Opera House de Nova York – Si, ritrovarla io giuro, de La Cenerentola, de Rossini. Você espera mais um momento especial?

Javier Camarena – Espero que sim, serão momentos especiais para todos nós. Não será o mesmo que expressar o personagem dentro do contexto da ópera, na situação que ele está vivendo em cena, porém é uma ária que sempre emociona o público.

A despeito da comunicação tão virtual no mundo atual, a apresentação ao vivo é uma condição inerente à ópera, não é?

Javier Camarena – A ópera jamais permitirá um playback em cena, jamais vamos simular que estamos cantando. Sempre estaremos diante do público, com uma orquestra tocando ao vivo e oferecendo as possibilidades técnicas e artísticas das vozes de cada um. Para mim a apresentação ao vivo é simplesmente como as coisas têm que ser feitas.

Quais são as suas predileções musicais?

Javier Camarena – No bel canto as obras mais fortes do repertório são de Donizetti, Bellini, Rossini. Mozart me encanta, é meu compositor favorito, não só suas composições operísticas, mas também suas sinfonias, concertos para piano e sopros, música sacra. Porém, o que mais gosto de cantar são os Sonetos de Petrarca, de Liszt. São músicas maravilhosas, com texto e poesia comovedores. As oportunidades que tenho de cantá-las são muito emocionantes para mim.

Dizem que você é um ator natural e verdadeiro. Como você desenvolveu esta expressão tão importante para o cantor de ópera?

Javier Camarena – O aprendizado da atuação acontece no desenvolver da carreira, trabalhando, durante as oportunidades de trabalhar com diferentes diretores de cena e colegas mais experientes do que eu, como Ruggero Raimondi, Ferruccio Furlanetto ou Alessandro Corbelli. São grandes cantores e atores, com os quais aprendi muito. Minha formação de ator também acontece através do contato com diretores e suas diversas formas de conceber cenas e situações. A ópera é isto, uma obra de teatro cantada. Quanto mais integridade no trabalho que quero interpretar, mais claro será o que quero projetar para a plateia.

Quais são seus próximos projetos?

Javier Camarena – Depois de São Paulo, começo a próxima temporada em setembro, no Teatro da Ópera de Los Angeles, com uma produção de Os Pescadores de Pérolas, de Bizet. Em novembro participo de outra grande produção, a ópera La Favorita, de Donizetti, no Teatro Real de Madri. Um dos concertos da próxima temporada que mais me emociona será no Teatro de la Zarzuela, também em novembro, em Madri. Cantarei zarzuelas, sou apaixonado por este gênero lírico-dramático espanhol. Este ano ainda canto em Las Palmas, em uma homenagem ao maestro e tenor Alfredo Kraus, também no Carnegie Hall de Nova York, e em dezembro estarei no Teatro da Ópera de Zurique, na ópera La Fille du Régiment, de Donizetti. Em 2018, entre outras temporadas, participo em fevereiro da ópera Semiramide, de Rossini, no Metropolitan Opera de Nova York. Outra temporada emocionante do próximo ano será a da ópera Lucia de Lammermoor, de Donizetti, no Teatro Real de Madri, em junho.

Como estimular público jovem para a ópera?

Javier Camarena – Primeiramente, há um grande tabu ao se pensar que a ópera é um espetáculo elitista. Não é assim. Também se diz que o espetáculo de ópera é falado em idiomas estrangeiros, que dificultam a compreensão. É outro equívoco, pois hoje em dia temos legendas, iguais às que lemos no cinema enquanto vemos um filme. Há ainda os que assistiram a somente uma ópera na vida e dizem que não gostam deste gênero. Para todos eu diria que a ópera é igual a qualquer outro gênero musical. Não há que entender, simplesmente há que escutar. E estar disposto a escutar. É preciso experimentar a ópera. No cinema também vemos filmes que gostamos mais e outros que gostamos menos. O mesmo se passa com a ópera, há diferentes títulos, temas, compositores, cantores, é o que torna tudo interessante. Quanto mais escutamos ópera, mais ganhamos critérios, que nos permitem definir o que realmente queremos escutar. Para os jovens eu digo que escutem ópera com atenção, antes de dizer que não entendem.

Que conselho você daria para um jovem estudante de canto lírico que deseja se tornar um solista?

Javier Camarena – Para jovens cantores eu digo que é preciso aprender a engatinhar antes de começar a caminhar, aprender a caminhar antes de aprender a correr e aprender a correr antes de começar a voar. O canto lírico é uma carreira de resistência e não de velocidade. Há que ser consciente e ter humildade, ter os pés bem firmes na terra para saber discernir entre o que se pode fazer ou não.

Você estimula a música entre seus filhos?

Javier Camarena – Tenho uma menina de 13 anos e um menino de sete. Estudam piano e violão, às vezes fazem treinamento de canto comigo, têm vozes lindas, são muito afinados. Mas eu não imponho nada a eles, deixo que sigam seus próprios caminhos.

 

Saiba mais em: http://mozarteum.org.br/pretty-yende-javier-camarena-angel-rodriguez/

Ingressos: https://www.ingressorapido.com.br/compra/?id=56691#!/tickets