Praias a perder de vista, construções históricas coloniais, palmeiras e uma infinita gama de tons de verde na vegetação. A descrição pode parecer incomum para o local escolhido para acolher a Chorakademie Lübeck. No entanto, logo na aproximação a Porto Seguro e no subsequente percurso de ônibus até Trancoso, fica claro que não se trata apenas de um ponto na costa brasileira, mas sim do paraíso, paraíso este que marca a segunda etapa de uma temporada de 2 semanas de trabalho no Brasil, com início em São Paulo, onde Carmina Burana foi apresentada em dois concertos.

É, no entanto, somente à primeira vista que Trancoso parece um refúgio quase intocado. Aqui, mãos humanas e hábeis cálculos criaram aquilo que um dia Kitzbühel representou para o Tirol, Nice para a França e San Remo para a Itália: um hotspot nobre para a alta sociedade, que aqui se encontra para apreciar o por do sol ou um jantar diante do cenário privilegiado que o vilarejo litorâneo oferece. Há 40 anos, aqui ainda imperava a prática do escambo; hoje a localidade tem uma das maiores concentrações de celebridades do país. E, com imponência e habilidade, até uma sala de concertos foi cravada em meio à natureza dominante, mais precisamente dentro do evidente campo de golfe que, devido à sua localização, é parte integrante da vida social. Uma sala de concertos com seu próprio tee, isso com certeza não existe em nenhum outro lugar.

À primeira vista o Teatro L’Occitane parece uma coroa de concreto armado. O conjunto que funciona como sede da música de concerto em Trancoso é formado por uma única faixa em formato de ziguezague, imponente e de efeito incrivelmente sólido. Ao me aproximar do auditório a céu aberto em forma de anfiteatro, escuto os primeiros acordes de um coro. Adentro o auditório – e fico maravilhado. A visão do palco e da parede que o delimita – naturalmente com o mesmo refinado ziguezague – é de deixar qualquer um boquiaberto. A harmonia entre cultura e natureza, tão raramente alcançada em sua plenitude, pode ser sentida aqui – e quase nos leva a esquecer a música que, como pano de fundo, se transforma na cereja do bolo. Johannes Brahms: “Permita-me, linda menina” – lindamente executada e simplesmente bela nesse cenário. Mas de onde afinal vem a música? No palco, pelo que se vê, não há vivalma. Tanto mais mística torna-se a cena. Esse som ao mesmo tempo distante, mas tão presente…

Vou seguindo o som – e o encontro. É simplesmente inacreditável: sob o auditório a céu aberto com capacidade para 1.100 pessoas, há outra “sala” idêntica – apenas coberta pela plateia acima de nós e aberta nas laterais. Um luxo permitido por razões acústicas e climáticas. Ademais, a cobertura cria uma certa proteção contra bolas de golfe (embora ainda não tenha sido registrado nenhum caso de ferimento por bolas de golfe errantes no palco superior). Ao adentrar o segundo palco, algo fica evidente: em Trancoso não houve economia em nenhum detalhe. E por que deveria haver? Tudo indica que os meios estão disponíveis, então, que sejam investidos. Investidos por exemplo no anexo composto de 8 espaçosas salas de estudo, uma sala de reuniões e um belo bar. É sempre muito edificante perceber a aplicação generosa – e razoável – de recursos privados na cultura.

Um centro cultural em meio a um paraíso de férias não é novidade. O que Trancoso e o Teatro L’Occitane têm de especial, no entanto, é que tudo funciona tão bem e conta com adesão. Os convites para os diferentes festivais no paraíso são oferecidos entre outros pelo Mozarteum Brasileiro, com cultura importada da Europa. Nesse caso, Rolf Beck com sua singular concepção da Chorakademie Lübeck, que desde há muito ultrapassou as fronteiras regionais da pequena cidade hanseática. A academia coral é um farol a iluminar Lübeck e sua região, com uma luz que alcança o mundo todo.

Mas voltemos a Trancoso. Nas salas de estudo acontecem as masterclasses para cantores. Cada integrante da academia tem pelo menos uma hora de aula individual com a mezzosoprano Lucia Duchonova. Trabalho muito intenso, que é uma das marcas registradas de Beck e sua academia coral. Foi precisamente esta a razão pela qual Beck foi convidado a vir ao Brasil: seu empenho e o amplo leque de oportunidades que dá a jovens cantores em sua escola da academia internacional são conhecidos e apreciados. Nas diferentes etapas da academia de canto coral, Beck trabalha com grupos que se alternam constantemente em obras do repertório coral. Muitos querem ser admitidos para as etapas de trabalho na Alemanha, porque reconhecem o valor do selo de qualidade que a academia de Beck lhes pode proporcionar. A maioria dos jovens músicos que dela participa, permanece estudando na Alemanha ou passa a ter oportunidades profissionais rapidamente.

Da equipe estável de Lübeck, 20 cantoras e cantores de 9 países vieram para a academia de canto brasileira, formando a base do coro. Acrescido de outros 48 brasileiros – selecionados por Rolf Beck e Lucia Duchonova a partir de uma enxurrada de 160 candidatos – o ensemble pode pontuar o concerto final não só com madrigais e coros a cappella de Brahms. A formação possibilitou a execução de grandes coros de ópera na terceira parte do programa, apresentando desde o “Coro dos Caçadores” de O Franco Atirador, até a famosa “Marcha Nupcial” de Lohengrin de Wagner, passando por “Va, pensiero” de Nabucco. Não houve quem conseguisse conter a emoção. Como despedida da academia, o Mozarteum Brasileiro coroou seis candidatos brasileiros que deverão participar da etapa alemã no próximo ano em Lübeck. Um intercâmbio cultural que não poderia ser melhor, nem mais exemplar.

O trabalho de Rolf Beck é singular, seu empenho na academia de canto coral inestimável. Ele é capaz de executar aquilo que outros nem sequer conseguem conceber: exporta a tão valorizada cultura alemã para qualquer lugar do mundo que a ela queira ter acesso e com ela queira paramentar-se. E isso ocorre praticamente em todos os lugares. O que difere, é que não há em toda parte os mesmos recursos de implementação disponíveis em Trancoso. Notável no trabalho de Rolf Beck é o fato de ele não exportar concertos em formatos prontos, mas antes seu conceito de formação de uma nova geração de artistas e das estruturas próprias. Torna-se ele assim embaixador de todo um sistema, do setor teatral alemão.

Originalmente funcionando como centro de formação de jovens artistas, esse sistema único foi se afastando cada vez mais da meta da formação e desenvolvimento de novos talentos que, no momento adequado, pudessem ser absorvidos pelos centros artísticos mais próximos. Mesmo nas pequenas cidades busca-se nomes conhecidos e “estrelas”. Assim, resta pouco tempo para o trabalho cuidadoso de desenvolvimento. E é exatamente este tempo que Rolf Beck emprega na formação de novos talentos. Pouco importa se na Alemanha, no Brasil ou na China, onde ele estará em outubro próximo com sua Chorakademie, estreando as Canções de Gurre, de Arnold Schönberg. Tudo naturalmente envolvendo corpo musical e artistas locais. “Apenas” 85 cantores partem da Alemanha; os demais músicos – as vozes femininas, orquestra e narradores – serão chineses. Tudo culmina com o concerto de encerramento do Festival de Música de Pequim no dia 24 de outubro de 2015, certamente tendo como ponto alto a celebração da bem sucedida exportação cultural.

Por Alexander Busche

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