Andre-Desponds

Por Ana Francisca Ponzio

Em cena, quatro pianos de cauda tocados por virtuoses que misturam clássico e jazz: esta formação inusitada faz do Gershwin Piano Quartet um sucesso mundial há quase 20 anos. Por intermédio do Mozarteum Brasileiro, este grupo suíço esteve no Brasil pela primeira vez em 1999, voltou em 2011 e retorna agora para deleitar plateias cativas e conquistar novos espectadores, em concertos que se realizarão dias 6 e 7 de outubro, na Sala São Paulo.

André Desponds, pianista que fundou o quarteto em 1996, fala em entrevista sobre este conjunto formado por músicos, que além de intérpretes, são arranjadores, improvisadores e compositores. Na formação atual, o Gershwin Piano Quartet, além de Desponds, reúne Stefan Wirth, Benjamin Engeli e Mischa Cheung.

Você costuma dizer que o lema do Gershwin Piano Quartet é: “Uma partitura na cabeça e não a cabeça na partitura”. Por quê?

André Desponds – Este lema é como uma piada em alemão, quer dizer que tocamos de cor. Não temos a cabeça que olha para as notas, porém temos as notas que estão em nossas cabeças. Quando estamos em cena, não temos necessidade de ler partituras, o que não significa que não as utilizemos para estudar e ensaiar. Geralmente as pequenas formações musicais tocam com partitura, mas nós tocamos de memória.

O que caracteriza o trabalho do Gershwin Piano Quartet?

DespondsSomos nós que fazemos os arranjos das músicas porque não existem arranjos para esta formação de quarteto de pianos. Cada um dos quatro pianistas do grupo pode fazer arranjos , de vez em quando, fazemos improvisações. Temos arranjos mais sofisticados, mais simples, mais humorísticos, mais sérios. Ou seja, cada arranjo é um pouco diferente do outro.

Todos os músicos do quarteto são arranjadores e improvisadores?

Desponds  – Sim. Stephan Wirth é compositor. Ele compõe bastante, é bem conhecido na Suíça. Eu componho de tempos em tempos para peças de teatro, filmes, clipes de publicidade.

Isto significa que a criação faz parte do trabalho de vocês.

Desponds Somos pianistas que sabem fazer muitas coisas, como compor, fazer arranjos, improvisar, criar. Reunir estas atribuições é um critério que tem sido importante para escolher os integrantes do grupo.

Um conjunto de quatro pianistas é incomum na música clássica, não é?

Desponds Sim, o Gershwin Piano Quartet é um conjunto raro. Eu conheço quiçá um ou dois no mundo que se apresentam com quatro pianos. Quartetos de instrumentos de cordas existem aos milhares, porém os de piano são muito raros mesmo.

Como surgiu a ideia de formar um quarteto de pianos?

Desponds A formação surgiu um pouco por acaso. Me solicitaram um concerto para uma empresa que vendia pianos. Perguntaram-me se eu poderia fazer algo com alunos e vários pianos ao mesmo tempo. Daí eu reuni meus três melhores alunos e fiz o concerto junto com eles. Foi um grande sucesso e eu resolvi formar um grupo. Isto foi há quase 20 anos e desde então tem funcionado muito bem.

Por que colocar em foco a música de George Gershwin?

Desponds Quando fizemos aquele primeiro concerto tocamos improvisações e alguns clássicos. Tínhamos feito alguns arranjos sobre a música de Gershwin e percebemos que suas composições eram o ponto comum de todos os pianistas do grupo, que apreciavam o jazz e o clássico.

Todos nós amávamos Gershwin, então resolvemos montar um quarteto Gershwin e durante dez anos tocamos somente suas composições. Depois optamos por diversificar os programas e passamos a tocar também Ravel, Prokofiev, Stravinsky e ainda as obras dos compositores que nasceram aproximadamente na época de Gershwin. Nada para nós é obrigatório, pois podemos tanto fazer arranjos de música pop quanto de Bach.

 O que a música de Gershwin traz de especial, para músicos e espectadores?

Desponds Trata-se de uma música muito versátil. A música de Gershwin pode ter arranjos clássicos, como também pode ser improvisada em tons jazzísticos. Eu não consigo imaginar sonatas de Schubert ou de Mozart tocadas por quatro pianos. Já a música de Gershwin é bem mais adequada para esta formação.

É uma música que está entre o clássico e o jazz, nela há um crossover. Isto agrada muita gente. Há uma técnica e uma construção clássicas, porém possui o ritmo do jazz. Gershwin é um grande compositor e sua música é maravilhosa.

Pode-se afirmar que a música do Gershwin Piano Quartet é uma mistura de clássico e jazz?

Desponds Atualmente somos mais clássicos, mas podemos sim dizer que nossa música é uma miscelânea entre o jazz e o clássico.

O Gershwin Piano Quartet toca a obra de George Gershwin e também composições de outros autores. Quais são os critérios de escolha do repertório?

Desponds Não temos um critério rígido de seleção. Se um de nós quatro deseja fazer um arranjo especial, pergunta ao grupo, nós avaliamos em conjunto e dizemos sim ou não. Trocamos ideias e resolvemos o que fazer.

Sou o fundador do grupo mas atualmente não sou o chefe. O chefe é aquele que faz o arranjo. O processo é bastante democrático. No início do Quarteto eu era chefe, porém hoje em dia somos todos pianistas.

Qual o desafio de quatro pianistas que tocam juntos, um de frente para o outro?

Desponds Pensamos muito na forma de tocar, temos dois pianos à esquerda e dois à direita do público. Os pianos da esquerda ficam abertos, têm a tampa aberta, como se faz normalmente. O som reflete na tampa e é direcionado diretamente para o público. Já os pianos da direita ficam com as tampas fechadas e por isso o som é mais espalhado, menos claro.

Os pianos da direita tocam mais o acompanhamento e os da esquerda a melodia, a parte importante, alternando um com o outro.

Quanto tocamos, mudamos de lugar a cada trecho da música, assim o público que está à direita ou à esquerda vê cada pianista pelo menos uma vez.

Isto parece difícil…

Desponds Sim, é difícil realizar um concerto com quatro pianos. Coordenar quatro pianistas, fazer com que quatro pianos toquem harmoniosamente, não é tão simples.

Há uma dose de performance nas apresentações do Gershwin Piano Quartet. Ela se dá naturalmente ou vocês chegam a ensaiar um certo jogo cênico?

DespondsO jogo de cena é natural e esta é uma das razões porque tocamos sem partituras. Sem elas podemos olhar um para o outro, ficamos mais livres, mais flexíveis.

Como acontece a empatia que vocês costumam estabelecer com o público?

Desponds A comunicação com o público se dá através da música mesmo. Não é todo dia que se vê um espetáculo com quatro pianos. Tocamos músicas que agradam ao público, os pianistas também são agradáveis aos olhos da plateia. Não somos muito rígidos, acredito que o público percebe isto e este conjunto de coisas funciona.

Você é um músico com muita desenvoltura, capaz de interpretar de Bach a Gershwin. Sua atividade musical também é versátil, não é?

DespondsDesde muito jovem, o que fiz de principal foi tocar música – clássica, jazz, música improvisada, música de dança, rock, música de filmes. Trabalho muito com dançarinos. Minha esposa, Andrea Herdeg, é bailarina e juntos já criamos espetáculos como Zal, baseado na vida e obra de Frédéric Chopin, que combina música, dança e teatro.Trabalho com teatro, componho música para filmes, inclusive para filmes mudos, aqueles que ainda não haviam incorporado o som. Na Faculdade de Artes de Zurique, onde leciono, eu ensino improvisação. Música clássica eu toco muito, tocar é o que mais tenho feito na vida. Já devo ter tocado em 100 mil concertos.

Não sou um pianista que se dedica só ao clássico. Procuro ser mais completo, todos os estilos me interessam, em todas as circunstâncias.

O programa que será apresentado em São Paulo é uma mistura entre clássico e jazz?

Desponds  Sim, é um programa variado, que inclui Rachmaninov, Scriabin, Prokofiev, Ginastera, Bernstein, Cole Porter e Gershwin, claro. Em resumo, posso dizer que gosto muito de todas as peças que serão tocadas (risos).

Após cada peça mais longa, com cerca de dez minutos, tocamos um solo, em seguida uma obra com o quarteto e assim sucessivamente. Isto dá ao público a oportunidade de conhecer a personalidade do pianista que faz o solo. A alternância, com o som de quatro pianos, também dá um certo fôlego, um certo equilíbrio para os ouvidos da plateia.

Queremos levar ao grande público músicas que talvez não sejam escutadas habitualmente. Acho que vão gostar.

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