Por Ana Francisca Ponzio

A Sinfônica de Bamberg conta com um clarinetista principal de primeira grandeza: Günther Forstmaier, definido pelo maestro da orquestra, Jonathan Nott, como “fenomenal”.

Forstmaier, nascido na cidade alemã de Immenstadt em 1968, será o solista do belíssimo Concerto para Clarinete em Lá Maior de Mozart, que será apresentado em dois programas da Bamberg em São Paulo: no concerto ao ar livre que a orquestra realizará na plateia externa do Auditório Ibirapuera (dia 22/5) e, em seguida, na Sala São Paulo (23/5).

Leia a entrevista com Günther Forstmaier, que resolveu estudar clarinete quando tinha nove anos de idade, influenciado por um ídolo do jazz, o norte-americano Artie Shaw.

Junto com a Orquestra Sinfônica de Bamberg, você vai tocar uma das obras mais celebradas de Mozart: o Concerto para Clarinete em Lá Maior. Qual o desafio desta peça para um solista?
Günther Forstmaier – Acho que o Concerto para Clarinete, de Mozart, é uma obra que fala por si. Ao público, apenas recomendo que se acomode na cadeira e desfrute desta música fantástica. Para mim, o desafio da peça é encantar a plateia. Espero compartilhar momentos de prazer musical junto com nosso maestro titular, Jonathan Nott, a orquestra e os espectadores brasileiros.

O que significa, para um solista, pertencer à Sinfônica de Bamberg, uma orquestra que tem sonoridade tão especial?
Günther Forstmaier – Tocar com a Sinfônica de Bamberg me oferece a possibilidade de aprender música de todas as épocas, do período clássico ao contemporâneo. Por causa da enorme variedade de repertório de nossa orquestra, há sempre a demanda de aprender, explorar e apresentar novas músicas. Uma mesma música pode soar de outra forma, quando tocamos com maestros diferentes. Claro que o chamado som “escuro” (*), redondo, que se tornou marca da Bamberg, está sempre lá, mas as características da música mudam, dependendo da personalidade do regente. Especialmente quando apresentamos as obras de compositores mais conhecidos, como Beethoven, Brahms e Bruckner – os quais, em minha opinião, pertencem ao repertório principal – o público ouvirá o único e típico som da Sinfônica de Bamberg.

Qual sua experiência mais marcante até agora?
Günther Forstmaier – Uma de minhas primeiras experiências, que influenciou minha carreira musical, foi enquanto era estudante. Vencer uma audição importante permitiu que eu me tornasse membro de uma das melhores orquestras para estudantes de música do mundo, a Gustav Mahler Youth Orchestra, fundada por Claudio Abbado (1933-2014). Foi lá que encontrei, pela primeira vez, este fabuloso maestro. Até então, meu foco era melhorar as habilidades técnicas de meu instrumento. Mas eu fiquei muito impressionado por Abbado, como ele expressava e moldava uma peça com suas mãos e gestos. No palco, nós éramos capazes de sentir que – não somente os músicos, mas também o público – eram capturados por sua grande personalidade. Mais tarde, em minha carreira profissional, aqueles momentos mágicos se repetiram quando eu tive a possibilidade de encontrá-lo novamente na Filarmônica de Berlim, pela qual fui convidado várias vezes para tocar como clarinetista principal.

Quais são suas preferências musicais?
Günther Forstmaier – A música clássica, especialmente a clássica-romântica, é uma de minhas maiores preferências, especialmente porque foi um período em que o clarinete teve um papel importante. Naquela época, aconteceram as principais evoluções do clarinete e muitos compositores escreveram concertos para solistas famosos, como Anton Stadler, Heinrich Joseph Baermann, Johann Simon Hermstedt e Richard Mühlfeld. Mais tarde, também o jazz ofereceu aos clarinetistas uma grande variedade de composições e emoções. Quando eu era criança, meu grande ídolo do clarinete era Artie Shaw, uma personalidade do jazz que me inspirou a aprender clarinete.

Quais os conselhos que você daria para um jovem músico, que aspira ser solista?
Günther Forstmaier – Praticar, praticar e praticar. Quando estudante, eu praticava entre seis e oito horas por dia. Mas também estudava o máximo possível sobre cada música, para saber como tocá-la. Apenas ouvir diferentes gravações ou performances não é suficiente. Aos jovens músicos, eu diria que devem aprender com professores reconhecidos, frequentar masterclasses, ter contato regular com outros músicos e se juntar a eles para tocar música de câmara. Além disso, é muito importante não copiar solistas famosos, mas sim absorver o que eles têm para ensinar. Acreditar em si mesmo, expressar sua personalidade e criar seu próprio estilo: isto é o que torna o músico único para o público.

O que o clarinete, instrumento que remonta à Idade Média, tem de especial?
Günther Forstmaier – O clarinete é um instrumento que permite ao músico expressar inúmeras emoções. Seu som é profundamente sensual. Sua ampla e dinâmica gama sonora permite tocar desde um pianíssimo profundamente delicado até um agudo fortíssimo. Ao mesmo tempo, o som de um clarinete possibilita criar uma infinidade de cores musicais.

O clarinete faz parte de seu dia a dia, mesmo quando você não está ensaiando ou se apresentando?
Günther Forstmaier – Como solista de uma orquestra tão exigente e importante como a Sinfônica de Bamberg, é necessário praticar diariamente, não somente para aprender uma nova música, mas também para manter o padrão técnico de excelência. Eu levo meu clarinete comigo até nas férias, para ficar seguro de que não vou regredir em nada.

Em sua opinião, qual a melhor forma de atrair novas gerações de público para a música clássica?
Günther Forstmaier – Toda criança deve ter a possibilidade de aprender um instrumento, pois desta forma o interesse pela música e especialmente a música clássica, se desenvolverá automaticamente.

Quais seus planos para o futuro?
Günther Forstmaier – Espero que o futuro traga para a orquestra à qual pertenço muitos maestros e solistas, reconhecidos e interessantes. Também quero me manter inspirado durante toda minha vida musical.

(*) Saiba mais sobre a sonoridade da Orquestra Sinfônica de Bamberg na entrevista com o maestro Jonathan Nott: Clique Aqui