Por Ana Francisca Ponzio

A genialidade de Gidon Kremer foi reconhecida desde o início de sua carreira. Depois de vencer os mais importantes concursos de música e brilhar como solista, foi definido como “o maior violinista do mundo” pelo legendário maestro Herbert von Karajan, logo que começou a se apresentar no Ocidente. A mítica sobre Kremer se consolidou com rapidez. Hoje, é venerado internacionalmente.

Nascido em Riga, capital da Letônia, em 1947, Kremer diz que o fato de pertencer a uma “dinastia familiar de músicos” teve impacto em sua formação.

Filho e neto de violinistas, Kremer fez da liberdade artística um dos pontos chaves de sua vitoriosa carreira. O reflexo está em seu repertório – vasto e diverso. Além dos grandes clássicos, sempre cultivou abertura para a música popular e contemporânea, realizando parcerias com artistas de linguagens diversas.

O gosto de Kremer por novos autores contribuiu para difundir compositores que entraram em voga – como o estoniano Arvo Pärt, cujas músicas estão atualmente até em trilhas de cinema.

O programa que apresentará na Sala São Paulo, dias 21 e 22 de junho, em companhia da orquestra de câmara KREMERata Báltica, é exemplo da postura eclética e generosa do violinista e também maestro. Além de interpretar clássicos como Tchaikovsky, Schumann, Schubert e Mussorgsky, Kremer apresentará obras de compositores contemporâneos menos conhecidos, como o polonês Mieczyslaw Weinberg, o ucraniano Valentin Silvestrov e o russo Alexander Raskatov.

Também está incluído no programa um dos compositores que Kremer mais admira: Astor Piazzolla (1921-1992). Sobre a obra do compositor argentino, cujo nome é associado ao tango, Kremer já lançou inclusive uma coleção de oito CDs – Hommage a Piazzolla, em 2012.

Na entrevista a seguir, Gidon Kremer revela sua rica visão sobre música.

O programa que você e a KREMERata Báltica apresentarão em São Paulo inclui obras de compositores populares, como Tchaikovsky, Schumann, Schubert e Mussorgsky, assim como Piazzolla, mas também autores menos conhecidos, como Weinberg, Silvestrov e Raskatov. O que norteia suas escolhas?
Gidon Kremer – Para mim é sempre importante ampliar a visão e a capacidade de escuta dos ouvintes. Minha principal proposta, na criação de um programa, é o equilíbrio entre o conhecido e o desconhecido, a atualidade e a tradição. Eu considero muito importante apresentar, por exemplo, a música de um compositor como Weinberg, que eu descobri recentemente. É uma alegria ver que, aos poucos, este amigo e colega próximo de Shostakovich está sendo reconhecido como um dos mais importantes compositores do século 20.

O que diferencia Weinberg, Silvestrov e Raskatov?
Kremer – Eu não apontaria diferenças, mas o que eles têm em comum. Ou seja, todos tentam expressar uma linguagem com alta carga emocional.

Você já disse que compositores como Beethoven e Mozart nos ajudam a compreender os autores contemporâneos e vice-versa. Pode explicar melhor esta afirmação?
Kremer – É simples: a tradição contribui para nos situar melhor em nossa própria época.

Por que a música clássica não pertence ao passado?
Kremer – Porque músicas de valor não possuem limite de tempo como o ser humano, o qual está vinculado ao seu período de vida. A música – quando é boa e relevante – sobrevive a todos nós.

Algumas de suas performances contribuíram para popularizar compositores como Arvo Pärt, Sofia Gubaidulina e Alfred Schnittke, que criaram músicas especialmente para você. O que estas parcerias representam em seu trabalho?
Kremer – Trabalhar com os compositores de nossa época – e existem muitos outros, além destes que você mencionou – me faz sentir que, como intérprete, eu posso melhorar e ir mais longe, à medida que me envolvo com os laboratórios de criação destes autores. Para mim, as amizades com muitos deles também representam trampolins para novas experiências musicais, novas partituras, que eu posso apresentar. Se percebo que minhas interpretações satisfazem os criadores das músicas, isto me dá confiança quanto às chaves de leitura, também das obras clássicas.

Graças a você, Astor Piazzolla tornou-se conhecido para plateias que nunca tinham ouvido o compositor argentino. O que o atrai em Piazzolla?
Kremer – As músicas de Piazzola não são intelectuais. São muito sinceras, vão de coração para coração. Piazzolla, para mim, não é somente um compositor de tango, mas uma grande personalidade do mundo da música, cuja alma penetra profundamente no coração do ouvinte.

Você já comparou Piazzolla e Schubert. O que eles têm em comum?
Kremer – Piazzolla e Schubert compartilham a mesma inocência e o mesmo senso de melancolia.

Você também já gravou músicas de filmes – como no CD Le Cinema. Qual a importância do ecletismo para você?
Kremer – Sou inimigo de tudo o que reduz a missão da música. Procuro construir pontes entre artes diversas e abordá-las sem diminuir o valor de nenhuma delas. Muitos projetos nasceram a partir desta premissa e sou grato por ter encontrado os músicos da KREMERata Báltica, que são parceiros maravilhosos nesta aventura. Músicos têm que ser abertos, correr riscos, cruzar fronteiras e não permanecer tão somente no domínio da beleza.

Seu interesse pelo cruzamento das artes já resultou em diversas experiências, seja com dança, artes visuais etc.
Kremer – Sim, amo todas as artes. Seja cinema, dança, literatura, sempre que possível eu tento encontrar motivos para uma “joint-venture” [associação para projetos comuns]. Recentemente, por exemplo, a colaboração com Maxim Kantor, um excelente pintor e escritor russo, no projeto Quadros de uma Exposição, de Mussorgsky, resultou em uma experiência muito especial, relacionada à Rússia e sua situação atual. Às vezes chamo este projeto inusitado de Quadros de uma exposição diferente.

A música brasileira chama sua atenção?
Kremer – Sem dúvida. Sou fascinado por artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil e outros. Quando estou no Brasil procuro aproveitar cada minuto para ouvir o autêntico som local, que está ao meu redor.

Fale por favor sobre a KREMERata Báltica, orquestra que você formou em 1997 e que o acompanha até hoje.
Kremer – Letônia é minha terra natal. Letônia, Lituânia e Estônia são três países da região báltica, que me são muito familiares desde minha infância. Perto de meu aniversário de 50 anos, eu me agrupei com músicos muito talentosos daquele lugar, conhecidos por sua profunda tradição musical, para criar uma orquestra para o festival de verão que eu dirigi por 30 anos em Lockenhaus, na Áustria. Na época, eu não imaginava que aquela iniciativa se transformaria em um projeto tão duradouro e que nós, literalmente, rodaríamos o mundo. Hoje eu concluo que a KREMERata Báltica é uma das experiências mais felizes e estimulantes de minha vida musical. Os músicos desta orquestra são tão cheios de entusiasmo e energia que me fazem sentir pelo menos 20 anos mais jovem.

Em outubro de 2013, em Berlim, você e a KREMERata Báltica fizeram um concerto em prol dos direitos humanos na Rússia, intitulado To Russia with love. Você acredita que músicos devem se associar a causas sociais e humanitárias?
Kremer – Eu sinceramente acredito que artistas e músicos não devem permanecer indiferentes à injustiça que está ao nosso redor. Isto me motiva a fazer algumas manifestações, principalmente através da música, a fim de combater essas injustiças. O concerto de Berlim foi um desses eventos e me sinto feliz por ter encontrado apoio entre meus amigos, para realizá-lo.

Você tem uma extensa discografia. Ou seja, você tem tocado, durante muito tempo, em estúdios de gravação. Paralelamente, mantém uma intensa agenda de apresentações ao vivo. Como você lida com esta dicotomia de nossa época: a tecnologia, importante porque fomenta a difusão da música, e a performance ao vivo, que garante a oportunidade de experiências vitais entre artista e público?
Kremer – Gravações são parte de minha profissão e pago meus impostos por gravar tantas músicas. As gravações ajudam a tornar conhecidos alguns compositores, me permitem pesquisar conceitos, os quais fazem com que ouvintes penetrem em mundos desconhecidos da música ou se deparem com interpretações incomuns. Mas, a proximidade proporcionada pelo concerto ao vivo ainda causa um impacto maior no ouvinte, enquanto a música gravada sempre permanecerá como um documento do passado, próximo ou não.

Como você vê a música no mundo atual?
Kremer – Penso que a meta deve ser não tanto entreter ouvintes, mas torná-los conscientes de que podem encontrar na música uma enorme energia adicional, necessária para a vida. Eu sempre digo: “abra seus ouvidos e você encontrará um oceano de beleza”.

Você acredita que é possível atingir a perfeição nas artes?
Kremer – Acredito que o idioma da perfeição pode matar as artes. Somente a natureza é perfeita. Como seres humanos, nós apenas tentamos alcançar alguma proximidade, uma pequena compreensão sobre o que é a vida. Lembro sempre do que ouvi repetidamente de um dos maiores músicos de nossa época, o regente austríaco Nikolaus Harnoncourt: “a beleza e a perfeição contradizem uma à outra”. A meta não é se intimidar com nossas imperfeições, mas lutar pelo melhor, arriscar abrir portas e mentes e dividir nossas emoções com aqueles que falam uma linguagem similar.

Uma pergunta básica: o que a música significa para você?
Kremer – Como músico, lido com sugestões, com significados que podem ser transmitidos. Encontrar alguns deles e compartilhá-los com o público tem sido provavelmente a minha maior tarefa nos 65 anos em que toco violino.

Qual o violino que você toca atualmente?
Kremer – Toco um Niccolo Amati, fabricado em 1641. Sou muito leal a ele. Não posso imaginar outro amigo tão próximo.