A Chorakademie Lübeck consagrou-se na cena internacional pela excelência musical e também por singularidades como sua proposta de revelar novos talentos e reunir cantores de todas as regiões do mundo. O Brasil, inclusive, está muito bem representado nesta academia coral alemã, que em suas apresentações na Sala São Paulo, dias 23 e 24 de junho, terá uma solista brasileira em Carmina Burana, a célebre cantata de Carl Orff, que integra o programa.

O maestro Rolf Beck, fundador da Chorakademie Lübeck, fala nesta entrevista sobre as propostas de seu conjunto coral, sobre os talentos brasileiros do canto e também sobre a 1ª academia Canto em Trancoso, programa de workshops que se realizará logo após os concertos em São Paulo. De 26 de junho a 1º de julho, na cidade ao sul da Bahia onde o Mozarteum já realiza o festival Música em Trancoso, Beck e mais 20 integrantes da Chorakademie Lübeck transmitirão seus conhecimentos para 50 bolsistas selecionados.

“Queremos transferir experiências de Lübeck para Trancoso”, diz Beck, que realiza programas similares frequentemente, na Alemanha e em outros países.

Comente por favor o programa que a Chorakademie Lübeck apresentará em São Paulo.

Rolf Beck Apresentaremos um programa muito especial em São Paulo. Na primeira parte teremos a música romântica alemã para coro e um ou dois pianos, com obras de Brahms, Schubert e Schumann.

Na segunda parte, vamos interpretar Carmina Burana, de Carl Orff, que é muito popular e que todos apreciam. Ao invés do acompanhamento de uma grande orquestra, vamos apresentar esta obra de acordo com uma versão de Orff para dois pianos, cinco instrumentos de percussão, coro e solos. Trata-se de uma versão muito especial, que possui a mesma intensidade da versão para orquestra.

No conjunto, são obras que se complementam muito bem.

O senhor também é fã de Carmina Burana, como a maioria das plateias?

Rolf Beck – Para ser honesto, 20 anos atrás eu não incluiria Carmina Burana em um programa como este. Trata-se de uma peça muito alemã. Porém, nos últimos anos eu aprendi a apreciar esta cantata, sua música, e atualmente estamos apresentando-a com grande entusiasmo. Por exemplo, fizemos uma gravação para a Sony, na versão que apresentaremos no Brasil, com o famoso percurssionista austríaco Martin Grubinger e seu conjunto, que é um grande sucesso. Todos gostam de Carmina Burana, eu também, assim como todos os que a ouvem.

Como é o elenco multicultural da Chorakademie Lübeck?

Rolf Beck – A Chorakademie é formada por cantores de muitas nações. Acredito que seja, provavelmente, o único coro no mundo que tem membros da África do Sul, Israel, de toda a Europa, do Brasil, Argentina, na realidade de todo o mundo.

Nosso coro reúne jovens de 19 a 31 anos. Todos estão estudando canto e música. Um exemplo do alto padrão de nossos cantores é a solista soprano brasileira, que tem o lindo nome de Lilian Giovanini e que fará solo na apresentação de Carmina Burana em São Paulo. Além de solista, ela também está no coro. Muitas vezes fazemos concertos em que os solistas também são integrantes do coro, como é o caso de Lilian. Isto significa que muitos participantes do coro têm a chance de ser solistas. Na Alemanha acredito que somos os únicos que fazem isto.

Nesta mistura de nacionalidades, os cantores brasileiros são em quantidade expressiva?

Rolf Beck – Sim, a Chorakademie irá ao Brasil com um conjunto cuja maior parte é de brasileiros, cerca de 10 ou 12. Muitos deles estão estudando na Europa, particularmente em Berlim, na Alemanha. São muito bons cantores, na maior parte sopranos e tenores e alguns mezzo-sopranos.

Acho muito interessante este grande grupo de cantores brasileiros que hoje vive na Europa, poder estar cantando em concertos no próprio país como integrantes de uma Academia internacional.

A quantidade de cantores se mantém sempre estável?

Rolf Beck – Depende do programa. Um aspecto especial da Chorakademie é que o coro muda, isto é, temos projetos com 20 ou 25 cantores e outros com 50 a 70.

Em novembro passado, nós apresentamos Elijah de Mendelsohn na China, com cerca de 65 cantores. No programa de São Paulo teremos somente 24 na primeira parte, para os programas de Brahms e Schubert. Já na segunda parte, em Carmina Burana, serão cerca de 60.

Alias, Carmina será apresentada com um grupo de percussão brasileiro, o Percussivo USP.

Portanto, teremos o coro internacional de jovens, o grupo de percussão brasileiro, dois pianistas da Alemanha, a soprano solista brasileira Lilian Giovanini e ainda o tenor Berj Karazian, que vem de Yerevan, na Armênia, e o barítono Peter Mazalan, da Eslováquia. É um conjunto bem internacional.

Como são escolhidos os programas?

Rolf Beck – Nossos programas são muito diferentes. De tempos em tempos fazemos música contemporânea, como neste ano, quando apresentamos na primavera uma obra do compositor chinês Guoping Jia.

Carmina Burana nós já apresentamos muitas vezes, assim como Mozart, Haendel, toda a literatura músical clássica, o que é muito interessante.

O repertório se constrói conforme os convites e projetos que desenvolvemos. Temos um relacionamento muito especial, atualmente, não somente com o Brasil, mas também com a China. A China tem construído muitas salas de concertos e o interesse dos chineses pela música clássica europeia tem crescido com muita rapidez. Eles nos solicitaram apresentações do Réquiem de Brahms com a Shanghai Symphony Orchestra, junto com a Chorakademie Lübeck. Foi muito atraente preparar e apresentar este Réquiem.

Proximamente, em outubro, iremos mais uma vez à China para fazer uma peça muito difícil de Arnold Schoemberg, Gurrelieder, que é longa e requer muita potência.

Em 2016, novamente retornaremos à China para realizar um projeto denominado Bach in China, o que significa que combinaremos o modo cantonês com as Paixões de Bach. Portanto, estes são exemplos que formam nosso repertório, junto com outros projetos de óperas e corais.

Por que o senhor, que formou-se em advocacia, resolveu dedicar-se à música coral? Qual a atração que a música exerce sobre o senhor?

Rolf Beck – Minha vida é muito especial. Eu comecei a estudar para ser advogado porque meu pai não queria que eu me tornasse músico. Estudei Direito até me formar, isto é, terminei a universidade e pratiquei a profissão. Durante todo este tempo eu estudei música e me aproximei da música coral. Participei de conjuntos corais, porém todo o tempo eu estudava Direito e, após meus exames, eu consegui trabalhar no German Music Council em Bonn, então capital da Alemanha. Fiquei lá cinco anos e, ao mesmo tempo, consegui finalmente estudar música com o famoso maestro Helmuth Rilling. Ele foi meu professor e eu me diplomei no Kapellmeister Exam, enquanto ainda trabalhava no Music Council.

Com estas duas graduações, de Direito e regência, eu consegui trabalhar em Bamberg, como diretor geral da Bamberg Symphony Orchestra, onde formei um coro, do qual ainda sou diretor musical. Naquela época, como regente de coro, preparei inúmeras peças para vários maestros importantes, como Frank Albinder, Giuseppe Sinopoli, James Levine.

O mesmo fiz quando me mudei para Hamburgo. Em 2002, quando eu era diretor geral do Schleswig-Holstein Music Festival, eu fundei a academia coral que hoje é a Chorakademie Lübeck, como um contraponto à orquestra internacional que lá tinha sido fundada por Leonard Bernstein.

Eu queria fazer com vozes o mesmo que é possível fazer com instrumentos musicais. Essa ideia tem funcionado muito bem e o público brasileiro poderá conferir este trabalho nos concertos que realizaremos em São Paulo.

A Chorakademie Lübeck é conhecida por abrir portas para novos talentos. Quais as oportunidades que os intercâmbios e audições da Chorakademie promovem?

Rolf Beck – Cerca de dois anos atrás, em uma audição que atraiu aproximadamente 600 interessados do mundo todo, tivemos cerca de 120 inscrições de brasileiros. Levei dois dias para processá-las, devido ao grande número de candidatos.

Acredito que entre 120 pessoas interessadas em estudar canto, se podemos escolher 12, ou seja, dez por cento, já temos um bom resultado.

Estas pessoas estão interessadas em ir para a Alemanha para sentir a atmosfera cultural da Europa. Muitas combinam estudos em outras academias europeias e fazem um circuito pela Europa. Para muitos, a contribuição de uma Academia Coral como a de Lübeck muda completamente suas vidas.

Um bom exemplo é Josy Santos, mezzo-soprano brasileira, muito jovem e talentosa. Ela fez carreira no festival Música em Trancoso e agora, além de estudar mestrado em canto em Frankfurt, já está obtendo boa posição em uma Opera House.

Esta é uma situação muito atraente para jovens cantores, pois podemos conseguir recursos para que possam viver e estudar na Alemanha e, de tempos em tempos, participarem de nossos concertos como solistas ou integrantes do coro.

Josy é um exemplo. Ela faz participações solo conosco de vez em quando, ao mesmo tempo que já desponta na Opera House.

Isto é algo que me encanta: ver jovens que chegam, que passam um tempo conosco e depois voam com suas próprias asas.

No ambiente multicultural da Chorakademie Lübeck, a música acaba sendo uma linguagem comum a todos?

Rolf Beck – Se cantamos com pessoas da África do Sul, o Motet de Bach, temos um novo mundo que se abre para eles, o qual nunca tinham acessado antes. Isto, acredito, é muito instigante, importante e ocorre porque acreditamos que a música é algo extremamente universal.

O Canto em Trancoso é uma semente que a Chorakademie Lübeck está lançando no Brasil?

Rolf Beck – Conheço Sabine Lovatelli há muitos anos. Estive na Bahia, naquela região onde foi construído o maravilhoso Teatro L’Occitane. Eu estava visitando o local há dois ou três anos, pouco tempo após o início do festival Música em Trancoso e eu fiquei muito impressionado. É incrível o que o Mozarteum fez lá.

Nós conversamos sobre o Teatro e, no momento, além do festival nada mais acontece no restante do ano. E eu disse, por que não tentamos realizar uma Academia como fazemos em Lübeck?

Agora a ideia está se tornando realidade. Faremos o Canto em Trancoso e para lá seguiremos, depois dos concertos em São Paulo, com 20 integrantes da Chorakademie Lübeck.

A proposta é que nossos cantores ofereçam alguma formação ou instrução em canto para os bolsistas selecionados. Também faremos, ao final, uma apresentação que mesclará os cantores brasileiros e os nossos, com um programa que não deve ser tão difícil, com canções e música ligeira.

Será uma primeira abordagem, uma experiência piloto e esperamos que esta proposta se desenvolva, que passe a ocorrer com regularidade. Veremos o que acontecerá. Estou aberto e com boas expectativas.

Foto: Felix Broede

 

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